segunda-feira, 30 de julho de 2007

PARALELOS

Tudo a sua volta — negro! Imerso em abrupta escuridão, o lugar era frio e o clima “carregado”. Por mais que olhasse em todas as direções, não conseguia distinguir formas, não conseguia perceber cores. E o silêncio tornava aquele limbo ainda mais assustador.

Mas instantes atrás ele viu monstros. Ou eram pessoas? Deformados, ruins, queriam maltratá-lo. José nunca sentiu tanto medo em sua vida! Mas ele merecia aquilo? Foi tão mal assim? Viveu realmente de forma tão deplorável para não ter paz mesmo depois de morto?

Ele quis morrer, é certo: entregou-se à bebida desde o início da sua juventude; ao cigarro; às drogas, às prostitutas; não foi um bom pai; não foi um bom marido — reconhecia tudo isso — mas depois não tentou mudar? Aliás, não tentou mudar tantas vezes que perdeu a conta? Não fez mal somente a si próprio, sendo ele mesmo, o principal alvo de suas loucuras e inconseqüências? Então por quê o inferno? Aqueles homens deformados, batendo-lhe... Estava nu. No frio. Sem dormir três dias seguidos. E isso, para não falar das outras humilhações a que tinha sido submetido, fortes demais para que José não chorasse, pedindo por sua mãe morta há muitos anos.

Mas ali, um novo jogo, revelado após o fim do breu: A sua frente, uma bancada de madeira iluminada por uma pequena vela e, em cima da mesa, por menos que combinasse com o cenário a sua volta e por tudo que viveu nas últimas semanas, vários dispositivos eletrônicos, artefatos eletro-mecânicos, baterias portáteis e telas de cristal líquido. Disseram que se ele tivesse inteligência para resolver o problema, montando o quebra cabeça, sairia dali, poderia ir para um lugar um pouco melhor, onde os castigos seriam mais brandos. O velho com o corpo cheio de chagas lambeu uma das feridas e lançou-lhe um olhar lascivo, antes de dar essa última instrução e desaparecer lentamente dali. Contudo, várias horas se passaram (ou o que pareceu várias horas) e José não conseguiu qualquer progresso. Nem seus conhecimentos em eletrônica e mecânica, adquiridos em vida, prestavam naquele momento.

Estava desesperado com a possibilidade real de novas torturas: a cabeça doía, seu corpo tremia de medo e frio, José urinava sem controle. Seu choro virou um soluço descompassado, sem lágrimas, com uma sensação de dor nos músculos do rosto. Eles voltariam e o problema não estaria resolvido. Queria desistir. Estava realmente disposto a desistir...

“Não”.

Uma voz, dentro da sua cabeça, uma voz.

“Não, tio, não desista não”.

Primeiro ele achou ser aquele clamor o de criança. Mas quando escutou pela terceira vez, grande alegria tomou conta de si...

“Vim te ajudar, tio. O senhor precisa desfazer essa ilusão”.

José voltou-se intuitivamente para uma direção qualquer e, parado ao seu lado, sorrindo-lhe, um rapaz alto, boa estatura, trajando roupas simples e surradas, com uma manta na mão. José sabia que o conhecia, que ele lhe era familiar e estava ali para ajudar. Mas quem seria?

— O senhor não quer admitir que já me reconheceu. Tudo bem. Não faz diferença! Toma, tio, vista a manta... Está frio demais aqui!

O rapaz pousou o cobertor em suas costas magras e deu dois tapinhas calorosos em seus ombros.

— Vou te ajudar, tio. Vamos montar logo esse computador!

Nas horas que se seguiram, o rapaz lhe forneceu instruções precisas sobre o funcionamento dos dispositivos de controle, de interfaceamento, de processamento e armazenamento daquela estranha máquina. José não sentiu dificuldade em encaixar tudo aquilo nos seus optativos lugares, fazendo o aparelho projetar caracteres num idioma desconhecido, de forma síncrona, por seus três monitores de cristal líquido.

— Viu tio? Está funcionando. Agora o senhor precisa acreditar que tudo isso é uma ilusão.

José se fixou nos olhos do rapaz e admitiu o que estava com medo de reconhecer desde o início do encontro. Com ar de tristeza, lamentou:

— Você cresceu. Quando deixei a vida, você tinha um ano de idade. Sua mãe estava grávida de novo. Você é o meu sobrinho que eu via tão pouco, mas que me sorria do berço e me encarava por longo tempo, como que me dizendo alguma coisa. Eu devo mesmo ter passado muito tempo neste inferno...

— Tio, eles são fantasmas. Pouco do que existe aqui é de verdade. Mas o senhor não sabe distinguir a ilusão. Lá no mundo, eu ainda tenho um ano de idade. É difícil entender, eu sei, mas quero que o senhor se convença de que passou poucos dias aqui. Sua morte foi recente e as pessoas ainda estão sofrendo muito por isso. Mas o senhor viveu seus dias acreditando que era mau, e que quando chegasse a “sua hora”, viria direto para o inferno. Bom, aqui está: O senhor construiu um inferno bastante interessante, tio.

— Posso sair?! Mas como? Como?
— Pode sim! Quando percebi que o senhor se deu uma chance de enxergar a verdade, e isso aconteceu na forma deste absurdo quebra cabeça, vi que era hora de interferir e te ajudar a sair dessa ilusão.

— Isso tudo é muito confuso...

— Não é, não. No fundo, o senhor sabe o que fazer. Projetou com suas crenças esse cenário todo aqui, os acontecimentos dos últimos dias, as torturas, os monstros, o frio. Acorde tio, acorde para a verdade. Existem pessoas que querem te ajudar, fazer o senhor perceber a realidade...

O rapaz fechou os olhos, pousou sua mão esquerda sobre a fronte do sofrido e esquálido homem, e com musculatura rígida e voz elevada, exortou, num tom de pregação:

— A verdade tio, “não é o que os seus olhos te mostram”. Sinta essas palavras com o coração, e o real virá!

José começou a sentir náuseas, sua cabeça doía, suas pernas pareciam não sustentar o peso do corpo, percebeu que iria desmaiar...

— O senhor precisa se manter acordado. Repita comigo: “tudo isso é uma ilusão”!

José se sentia ridículo pronunciando tal frase, mas o faz mesmo assim. Várias vezes.

— É uma ilusão, — sua voz saia embargada — tudo isso é uma ilusão, ilusão, quero sair dessa mentira, quero ver a luz!

O rapaz sorriu ao ver seu amigo assumindo-se, comandando sua própria libertação.

— Continue tio, com o coração, está dando certo!

— Ilusão, ilusão, ilusão... EU QUERO A VERDADE! A VERDADE! NÃO SOU MAU! NÃO MEREÇO A DOR! NÃO MEREÇO A DOR! NÃO MEREÇO A D...

Uma explosão. Silenciosa. De luz. Muita luz. Calor. A sensação de estar se movendo para cima numa velocidade perigosa. Vento. Depois a parada suave. Seu sobrinho segurando sua mão. Um globo brilhante. O calor no rosto. O globo é o sol. O calor no corpo. Cheiro de grama. Grama sob seus pés descalços. Um parque. Muitas árvores. José fechou os olhos e caiu. Sentiu que o rapaz deitou seu corpo e apoiou sua cabeça antes que ela batesse no chão.

— Durma tio, durma. Ficarei aqui com o senhor. Foi muito esforço...

Sua voz era calma e transmitia segurança. José se entregou ao sono. Mas antes de perder a consciência, escutou uma voz de mulher perguntando sobre como ele estava. O rapaz respondeu a ela algo que tranqüilizou José ainda mais. Então ele dormiu mesmo.

Quando acordou, estava vestido com um tipo de avental de cor branca. Mangueiras finas com agulhas nas pontas espetavam seu corpo em várias partes. Telas de cristal líquido mostravam num tom esverdeado linhas onduladas, seguidas de bipes contínuos, que eram representações dos sinais vitais de José. Seu sobrinho segurava um estetoscópio com uma das mãos. Com a outra, verificava informações rabiscadas numa caligrafia desleixada em uma ficha amarela presa a uma prancheta transparente.

— Agora que o senhor acordou, já posso ir. Eles vão cuidar de você. Meu trabalho aqui acabou.

— Onde estou?

— Onde o senhor acha que está?

— Eu não lembro o que aconteceu.

— Vai lembrar.

— Carlos?

— Sim, tio...

— Devo te agradecer.

— Não por isso.

— Me faça mais um favor?

— Fale.

— Diga a eles que eu estou bem.

— Não posso fazer isso.

— Por que, não?

— O senhor não tem mais ninguém, lembra? Agora realmente preciso ir. Descanse e fique com a tua consciência, tio.

Vitor Souza

segunda-feira, 16 de julho de 2007

um momento...

A chuva caiu sem avisar, como um sorriso que some depois de uma péssima surpresa. Apalpei minha bolsa e pude sentir a água estuprando meus poemas e a firmeza da garrafa de uísque que comprei ontem e que tem de durar mais um dia pelo menos. Passo pela praça central como quem tem um punhal enfiado nas costas, me lembro do banheiro público que deve estar vazio. Entro e escolho um reservado, me sento no vaso e limpo com a barra da camisa as lentes dos óculos que estão salpicadas pela chuva. Ouço passos apressados como os meus e um solavanco na porta do reservado que estou. O golpe é forte e acerta em cheio meu rosto. Caio com sangue pela barba; " Meu nariz quebrado de novo" penso eu,masnão era. Apenas um cortezinho no supercílio esquerdo. Um zumbido também. "Filho da puta" digo me erguendo com dificuldade pela dor, pela surpresa e pelo espaço que não é muito. dou de cara com um garoto mais assustado que eu. Em pé, frente a frente, vejo que ele é pequeno e treme. "Desulpe moço, mas se eu não corro a polícia me pega." "O que foi que você aprontou?" "Estava acendendo um baseado ali perto da fonte, coisa pequena, Só a ponta. Por favor não me entrega não." Nem havia pensado nessa possibilidade "Quantos anos você tem?" "Quinze" "Você é louco? Ficar fumando isso durante o dia? E ainda mais debaixo de chuva, por que não veio para cá antes? Aqui é um sossego só." Ainda me lembrava da festa que havíamos promovido neste mesmo banheiro oito anos antes, eu, The Killer, Baby Face, Cajú, Samy Love e mais alguns... ficamos tocando violão, e papeando até o guarda aparecer e nos botar pra fora por que havia uma garota no banheiro masculino. Anos depois tinha tomado um tremendo porre enquanto apresentava um show de poesia no espaço cultural de onde o banheiro fazia parte e tido um revival com uma jovem ex-namorada. Bons tempos... " Nem pensei nisso. Quer dar um tapa?" "Não, valeu... não fumo." "AHHHHHHHHH VOCÊ NÃO FUMA? JUSTO VOCÊ??? " "Nem sempre os loucos são fabricados. Alguns nascem brisados. Eu bebo, por exemplo." "Sempre achei que tu fumava. Meu irmão lê algumas coisas que você escreve e sempre me disse que você deveria ser o maior maconheiro da cidade." "Bem a cidade nem é tão grande assim. Mas meu lance é sentir o uísque descendo pela garganta. Me reconforta" "De qualquer forma, valeu por não criar caso." "Meu filho cada um é livre pra seguir seu caminho." A chuva lá fora pareceu convidá-lo com mais força, da mesma forma que chegou partiu. Voltei ao reservado mas dessa vez mantive a porta aberta, abaixei as calças, acendi um cigarro pra mim, destarrachei a tampa e tomei um trago saboroso do meu uísque vagabundo. O mundo poderia acabar agora mesmo...

Jim d.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

estréia de JIM D.

"vou me afastar sem você saber, sem você notar e quando eu estiver longe você irá me procurar e mesmo que tenha que omitir sua vida, saberá nobres notícias sobre meu lastimável e doce paradeiro/ eu vou me fixar nos seus olhos e vou atrofiar os seus músculos, você vai me sentir na derme pura até engasgar a minha saliva, mas não vou aparar suas garras, agora não." Gabriela Carpi

teus olhos me soam como Billie Hollyday um jazz cheio de bourbon e meia-noite.. Camel, Hollywood, Lucky Strikes são apenas um maravilhoso passatempo tudo se esvai em filtros e ficamos assim sorrindo entre cinco minutos de prazer e paz E quando eu ando entre os livros piso , desastrado nos solos de Chet Baker e chego blues caminhando em um jardim separado de tudo apenas a tinta com que consagro meus instantes marcando o destino já conhecido. Sempre volto ao lugar onde parti a primeira vez. Não por saudades mas por vontade de partir de novo. Estamos a postos comecem a celebração, vejam as cadentes estrelas tudo e pausa slow motion... Nós partiremos juntos



Às vezes a gente fica procurando estrelas
Perdido num ponto qualquer da cidade
Querendo apenas mais um momento de paz.
Estranhos passos nos levam em direção da forca
Seremos vítimas sempre.
Ela se aproxima com um punhal afiado
Sorrindo como a esperança
Calma como o amanhecer,
Seus cabelos castanhos desenham o adeus,
Mãos bailam pelo corte do punhal
Uma gota vermelha como uma rosa surge
Em seus dedos, pequenos como a culpa.
Acaricia o rosto da morte com devoção
E aguarda seu beijo libertador
Os olhos procuram um ponto de fuga
A realidade penetra os sonhos
E sofrem os anjos que caminham desinibidos
Pelo deserto da alma

Jim d.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Pé na Estrada Nelson Rodriguiano

Entre um pigarrear e outro ele abria-se resoluto:

- Meu bem, tenho que ir-me. Não quero que entendas, somente que aceite. Sabes que te amo, e como te amo, mas amor maior tenho pela minha alma, e essa pede que eu vá, essa, com pernas a ditar-lhe, avisa ao corpo que os pés já estão de partida. É o tornar-me quem sou, é o caminho das minhas pedras, meu on the road...

Já acostumada ao lirismo do seu pequeno, com longas e intermináveis oratórias repletas de conteúdos e autores, ela olhava-o sem muito espanto. Sabia que o destino do moço era andar, e seu sexto sentido já havia avisado-a da proximidade do evento. Portadora de uma alma ciumenta, mas de nobreza inigualável, contorcia todos os músculos de seu corpo de bailarina a forçarem-se em expressão de compreensão e apoio.

- Chuchu, sabes que também te amo. Sabes como te quero por perto, mas te quero feliz. Quero que este brilho nos teus olhos corra o mundo e volte para a sua estrela bailarina. Vai em busca do teu sorriso, vai, não tarda a voltar assim que encontrá-lo. Não se despeça mais, até a volta...

Espantado com o coração da mocinha, sorriu-lhe o seu sorriso de procura e saudou-a já caminhando de costas em direção à porta, “até a volta, meu amor”.

Partiu assim, em despedida alegre. Despedida com feições de reencontro, seu reencontro. O céu arrumou-se para preparar espaço para sua mais nova estrela. Como foram seus ídolos, foi a mão ao bolso em busca de uns cigarros, os companheiros mais assíduos dos viajantes literatos e sem novos hábitos a inovar; acendeu o cigarro e andou até a estação de espera do ônibus destino. Sua grande mochila serviu-lhe de encosto na longa espera, feita longa pelos seus recém completados 24 anos a sonhar...

A lotação norte varria o asfalto possuída naquela noite branca. Sua rota tranqüila foi interrompida por um sujeito traído e cruel que tomou o ônibus de assalto com vistas de atropelar a mulher e o dito cujo no bar nordeste. Com cano em cabeça, o condutor era proibido de frear. Inútil e previsto dizer que, aterrorizado e ensebado de suor, mal viu a ponta de um cigarro recostado em uma sacola. Sentiu mais o estalar de ossos por sob as rodas.

Morreu ali, seus sonhos inscritos no asfalto com excremento e sangue.
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Mateus Souza

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Dany do espírito santo

Miss Dany era o arquétipo de uma geração de mulheres antigas. Nasceu no interior já prematura, começou seus trabalhos domésticos aos três anos de idade, aos cinco vendia calcinhas de nylon em uma feirinha, aos 12 foi comida por um caipira desdentado em uma moita de riacho e aos 15 se casou. Mudou-se para a capital com seu macho e, com muito esforço criou seus 5 filhos. Todos em escadinha.

Dany já contava seus sessenta e quatro anos, vividos rotineiramente sem grandes surpresas e com muitos trabalhos. Costurava roupas, lavava roupas, vendia roupas e, eventualmente, produzia roupas para sua famigerada família. Como todos seguiam o padrão de trabalho prematuro, a família conseguiu comprar um pequeno apartamento de dois cômodos em um bairro de classe média. A esta altura, o seu velho marido gasto já havia abotoado o palitó, depois de algumas doses a mais de caninha barata e cigarros vagabundos. Cozinhava para o batalhão e mantinha a casa em ordem, não porque era uma batalhadora, mas por ser este o motor de sua existência.

A Su era sua filha mais velha. E mais rentável. Mantinha um corpo exuberante e a melhor coleção de roupas da casa. Prestando contas à velha mãe, apresentava-se como uma competente recepcionista de motel que conquistava por agrado gorjetas que inflacionavam seu modesto salário. Era o orgulho da família, ainda que seu verdadeiro movimento era o de abrir portas em seu corpo um pouco mais suculentas que as da recepção.

Dany, como boa mãe que era, arrumava a fantástica coleção de roupas de sua filha, o que incluía uma memorável coleção de calcinhas bastante diminutas, diga-se. Contava ainda com inúmeros casacos de pele e objetos um tanto quanto suspeitos para a sua velha mãe, mas, dada a forma plástica e fluida destes, não obtinham classificação possível para a velha.

Numa dessas diárias arrumações, a velha senhora deparou-se com um modelito que cabia-lhe como uma luva pro seu corpo. De certo que algumas carnes cinturescas escapavam por entre as bordas da roupinha, mas, mesmo assim, a humilde senhora viu-se como uma diva pela primeira vez em sua vida. Já vencida pela tentação de usufruir pelos espelhos da casa vestida de Su, a velhota resolveu permitir-se mais uma liberdade. Iria fazer um pequeno passeio pela vizinhança com seu novo look. Desse modo, cobriu-se de alfazema, pôs o modelinho justo, salpicou um pouco de pó e batom em suas feições enrugadas e desceu os 5 lances de escada que a separavam da rua.

Naquele dia quente o asfalto exalava um terrível odor vaporizado. Cabeças de transeuntes eram fritas como ovos em frigideiras por desabrigo do sol quente. Dany andou impassível até a banca de revistas mais próxima. Seu estado de glória impedia que seus poros exalassem qualquer gota de suor amargo. Dois arcanjos, curiosos com a cena, descerem dos altos céus para bisbilhotar a velha alma jovem em seu vestido decotado. Com seus dedinhos angelicais, abriram uma fenda por entre uma nuvem espessa e fitaram a cena com seus olhos esverdeados de anjos.

Pediu ao senhor da barraca um maço de cigarros. Por entre as formas adiposas que recheavam o vestidinho, o velho arqueado estremeceu com o doce aroma de alfazema que fluía da alma ressucitada da velha senhora. Moveu-se mudo por entre as prateleiras do recinto, agarrando um pacode de cigarros derby luxo. Ofereceu-lhes à Dany emudecido, e, pela primeira vez na entrega de um produto, esqueceu-se de cobrar. Aproveitando seus novos encantos recém descobertos, Dany saiu sem pagar a carteira de cigarros. Sentou-se ao ponto de ônibus, sem muitos planos em mente. Acendeu um cigarro, cruzou suas pernas colecionadoras de varizes e fumou com todo o glamour que sua pose lhe permitia. Aqueles minutos sentados no sujo banco de concreto tranportaram-na para uma profusão de belezas sensíveis que jamais havia experimentado. Os transeuntes com cabeças de ovos fritos viravam-se para contemplar a velha; uma carreira de formigas em procissão para um pedaço de doce caído de um bolso de um garoto pré-escolar mudou seu rumo em respeito à figura imponente que bloqueou o antigo caminho; carros freavam à vista da velhota de luz, buzinado respeitosamente em flertes do século vinte e um. Os olhares dos arcanjos atiçaram a luxúria de seus corpos de luz.

Dany debruçou-se sobre o banco como que por sobre um divã. A enxurrada que inundou seus sentidos começou a acelerar o ritmo do seu coração gasto. Sentiu o frio do fim de existência a passear por entre sua espinha. Acendeu mais um cigarro, deu uma longa tragada, fechou os olhos e libertou sua alma, que foi prontamente recolhida pelos arcanjos curiosos.

Um velho jornalista foi promovido por suas sensacionais fotos sobre o último dia da dama da parada das lotações.
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Mateus Souza

terça-feira, 3 de abril de 2007

Vida em Potencial

Sabemos até onde nossos sonhos podem nos levar, sabemos que não existem limites para nossa imaginação, sabemos porém construímos barreiras em torno de nossa sensibilidade para manter os pés no chão do conformismo. Sabemos que merecemos mais do que a matriz moderna da vida pode nos oferecer e sabemos que desejamos mais do que nos é oferecido.
Gostaria de saber como é sentir o que outros já sentiram. Sentir os versos dos poetas que amamos tanto. Sentir a inspiração para os quadros já pintados, ver as musas dos grandes artistas no espelho. Queria poder dizer o que já foi dito para concubinas vitorianas, escrever as cartas que receberam as virgens prometidas das guerras napoleônicas. Pensar no que já foi pensado, dispensar os limites de nossa individualidade. Conhecer sobre o que cantam os passarinhos, respirar o que respiram os peixes no mar, refletir a paz dos destinos dos rios.
Merecemos a vida que está longe de nosso alcance, porém nos ancoramos para ver o único horizonte que nossos olhos enxergam. Sonhamos no que está além de nossa visão, sabendo que lá vivem todas nossas satisfeitas expectativas. Queremos ir além do horizonte, esse horizonte dinâmico que se adapta constantemente para nos fazer continuar desejando o que não temos. Estendemos a mão para alcançar aquilo que deixamos de ver quando piscamos. Seguimos nossos passos, dando voltas em torno de nossas humanas limitações. Sentimos nosso sangue se reciclar como nossas vidas. Sabemos que não existe o amor perfeito, porém nunca deixaremos de procura-lo, convencidos que ele poderá um dia passar por debaixo de nossos narizes. Saímos ao sol todos os dias, quem sabe é hoje que seremos iluminados por algo além dos raios solares. Encaramos as estrelas com expectativas que em uma delas a gente veja o reflexo de nosso destino. Sonhamos alto, pois é tudo que temos.
Rabisco versos em minha pele, forçando uma forma pessoal de stigmata. Buscando deus no sangue que escorre pelo braço, meu merecido conforto. Todos merecemos segredos. Conversamos com a angústia e combinamos futuros encontros. Olhamos no espelho para ver se dessa vez gostamos do que vemos. Rezamos para os deuses panteístas ao chorar mais uma lagrima de desilusão. Engasgando no concreto das intermináveis cidades. Os rios cochicham lindos versos que se elevam à luz divina, e quando eu canto, as montanhas também cantam. Vemos que os pesos que carregamos não precisam ser cicatrizes, são apenas meros arranhões insignificantes perante o que é real.
A vida em potencial não é o que sentimos. Não é o que vemos. A vida em potencial não é o que queremos que ela seja, ela é sempre o resto. É aquilo que poderíamos sentir, o que poderíamos ver, é aquilo que talvez gostaríamos que ela fosse. Lemos os livros de outras vidas, apreciamos as pinturas de outras percepções, cantamos os refrões de outros sofrimentos, tentando por apenas um minuto sentir o que poderíamos sentir. Estamos em uma busca eterna atrás daquilo que nunca iremos encontrar, sem nunca perder a esperança. Temos que encarar a vida de cara, sempre. Encarar a vida de cara para poder depois descarta-la. Aceitamos os minutos. Aceitamos os dias. Aceitamos a vida.
Nos limitamos ao falso conforto da vida completa, a romântica visão do "o que mais posso querer". Ignoramos o óbvio para andarmos em linhas retas. Queremos a vida em potencial, mas nossos limites não nos permitem. Nós somos a evolução da aceitação desse raciocínio. Não podemos viver a vida como ela pode ser, portanto criamos uma versão genérica da mesma. Uma vida que reflete nossos limites como seres humanos. A busca pela vida em potencial é um caminho a ser percorrido só, com estradas que só o indivíduo pode construir e percorrer, com hotéis de beira de estrada onde somos os recepcionistas e o hóspedes, gurus e aprendizes. A estrada do conhecimento só termina quando nos afastamos demais do rio e deixamos de ter acesso à água--o elixir da vida--nosso comforto realista. Seres mortais, aventureiros da subjetividade, se infiltrando sempre mais adentro da densa floresta de possibilidades. Fugindo do elixir da vida, morrendo a cada passo. Curiosos, olhos brilhando como os das crianças, nos aprofundando no infinito da percepção. Sacrificamos a vida em comforto para podermos aprender o que a vida é exatamente. Entramos na interminável floresta para nunca mais voltarmos e, se voltarmos, sabemos que tinha muito mais para ser visto. Com o rabo entre as pernas, voltamos à estabilidade, o refúgio para se esconder da vida como ela pode ser. Um suave suicídio espera quem tentar a compreender.

-Guilherme Rocha
A Moita Suspeita

domingo, 1 de abril de 2007

ALGUNS POEMAS EDSON FEUSER

ARAR

QUERO ARAR ESSA LÁGRIMA
E PLANTAR QUIMERAS
DE SER EU TÃO VIVO
DE SER EU TÃO LÍVIDO
DE SER


ALADOS

EU RABISCO!
E SINTO COMO QUE BELISCO
A PELE DA FOLHA
NÃO APERTO MUITO A CANETA
PARA NÃO SULCAR E USAR O OUTRO LADO
NÃO VEJO O OUTRO LADO
DESEJO QUE USEM O OUTRO LADO
OU QUE NÃO USEM MAS,
QUE ELE,
FIQUE LADO, ALI, PARADO
QUERO QUE PERDUREM OS LADOS
UNIDOS
ATADOS
LADADOS.
HÁ LADOS
ALADOS.

EU SOU

EU SOU UM AMERICANO LOUCO
DE CARTOLA OU CHAPÉU-CÔCO
DE GRAVATA E TERNO CARO
OU DE BATA E CHINELOS RAROS

EU SOU UM AMERICANO LOUCO
DE CHUTEIRAS OU BOLA NA CESTA
CARECA, CABELO LISO, RASTAFARI, CACHEADO
COM PIOLHOS OU TIARA DE BRILHANTES

EU SOU UM AMERICANO LOUCO
DO MEIO, DE CIMA OU DE BAIXO
EM ALGUMA ETNIA OU IDEOLOGIA
EU ME ENCAIXO

EU SOU UM AMERICANO LOUCO
DITADOR,LIBERTÁRIO
CONTRA OU REVOLUCIONÁRIO
REALISTA OU VISIONÁRIO

EU SOU UM AMERICANO LOUCO
COM A CABEÇA CHEIA DE RELIGIÕES
MISTURANDO TUDO OU ATEU
INTEGRADO SEM PERCEBER A VOLÚPIA CONTINENTAL.