quarta-feira, 4 de abril de 2007

Dany do espírito santo

Miss Dany era o arquétipo de uma geração de mulheres antigas. Nasceu no interior já prematura, começou seus trabalhos domésticos aos três anos de idade, aos cinco vendia calcinhas de nylon em uma feirinha, aos 12 foi comida por um caipira desdentado em uma moita de riacho e aos 15 se casou. Mudou-se para a capital com seu macho e, com muito esforço criou seus 5 filhos. Todos em escadinha.

Dany já contava seus sessenta e quatro anos, vividos rotineiramente sem grandes surpresas e com muitos trabalhos. Costurava roupas, lavava roupas, vendia roupas e, eventualmente, produzia roupas para sua famigerada família. Como todos seguiam o padrão de trabalho prematuro, a família conseguiu comprar um pequeno apartamento de dois cômodos em um bairro de classe média. A esta altura, o seu velho marido gasto já havia abotoado o palitó, depois de algumas doses a mais de caninha barata e cigarros vagabundos. Cozinhava para o batalhão e mantinha a casa em ordem, não porque era uma batalhadora, mas por ser este o motor de sua existência.

A Su era sua filha mais velha. E mais rentável. Mantinha um corpo exuberante e a melhor coleção de roupas da casa. Prestando contas à velha mãe, apresentava-se como uma competente recepcionista de motel que conquistava por agrado gorjetas que inflacionavam seu modesto salário. Era o orgulho da família, ainda que seu verdadeiro movimento era o de abrir portas em seu corpo um pouco mais suculentas que as da recepção.

Dany, como boa mãe que era, arrumava a fantástica coleção de roupas de sua filha, o que incluía uma memorável coleção de calcinhas bastante diminutas, diga-se. Contava ainda com inúmeros casacos de pele e objetos um tanto quanto suspeitos para a sua velha mãe, mas, dada a forma plástica e fluida destes, não obtinham classificação possível para a velha.

Numa dessas diárias arrumações, a velha senhora deparou-se com um modelito que cabia-lhe como uma luva pro seu corpo. De certo que algumas carnes cinturescas escapavam por entre as bordas da roupinha, mas, mesmo assim, a humilde senhora viu-se como uma diva pela primeira vez em sua vida. Já vencida pela tentação de usufruir pelos espelhos da casa vestida de Su, a velhota resolveu permitir-se mais uma liberdade. Iria fazer um pequeno passeio pela vizinhança com seu novo look. Desse modo, cobriu-se de alfazema, pôs o modelinho justo, salpicou um pouco de pó e batom em suas feições enrugadas e desceu os 5 lances de escada que a separavam da rua.

Naquele dia quente o asfalto exalava um terrível odor vaporizado. Cabeças de transeuntes eram fritas como ovos em frigideiras por desabrigo do sol quente. Dany andou impassível até a banca de revistas mais próxima. Seu estado de glória impedia que seus poros exalassem qualquer gota de suor amargo. Dois arcanjos, curiosos com a cena, descerem dos altos céus para bisbilhotar a velha alma jovem em seu vestido decotado. Com seus dedinhos angelicais, abriram uma fenda por entre uma nuvem espessa e fitaram a cena com seus olhos esverdeados de anjos.

Pediu ao senhor da barraca um maço de cigarros. Por entre as formas adiposas que recheavam o vestidinho, o velho arqueado estremeceu com o doce aroma de alfazema que fluía da alma ressucitada da velha senhora. Moveu-se mudo por entre as prateleiras do recinto, agarrando um pacode de cigarros derby luxo. Ofereceu-lhes à Dany emudecido, e, pela primeira vez na entrega de um produto, esqueceu-se de cobrar. Aproveitando seus novos encantos recém descobertos, Dany saiu sem pagar a carteira de cigarros. Sentou-se ao ponto de ônibus, sem muitos planos em mente. Acendeu um cigarro, cruzou suas pernas colecionadoras de varizes e fumou com todo o glamour que sua pose lhe permitia. Aqueles minutos sentados no sujo banco de concreto tranportaram-na para uma profusão de belezas sensíveis que jamais havia experimentado. Os transeuntes com cabeças de ovos fritos viravam-se para contemplar a velha; uma carreira de formigas em procissão para um pedaço de doce caído de um bolso de um garoto pré-escolar mudou seu rumo em respeito à figura imponente que bloqueou o antigo caminho; carros freavam à vista da velhota de luz, buzinado respeitosamente em flertes do século vinte e um. Os olhares dos arcanjos atiçaram a luxúria de seus corpos de luz.

Dany debruçou-se sobre o banco como que por sobre um divã. A enxurrada que inundou seus sentidos começou a acelerar o ritmo do seu coração gasto. Sentiu o frio do fim de existência a passear por entre sua espinha. Acendeu mais um cigarro, deu uma longa tragada, fechou os olhos e libertou sua alma, que foi prontamente recolhida pelos arcanjos curiosos.

Um velho jornalista foi promovido por suas sensacionais fotos sobre o último dia da dama da parada das lotações.
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Mateus Souza

terça-feira, 3 de abril de 2007

Vida em Potencial

Sabemos até onde nossos sonhos podem nos levar, sabemos que não existem limites para nossa imaginação, sabemos porém construímos barreiras em torno de nossa sensibilidade para manter os pés no chão do conformismo. Sabemos que merecemos mais do que a matriz moderna da vida pode nos oferecer e sabemos que desejamos mais do que nos é oferecido.
Gostaria de saber como é sentir o que outros já sentiram. Sentir os versos dos poetas que amamos tanto. Sentir a inspiração para os quadros já pintados, ver as musas dos grandes artistas no espelho. Queria poder dizer o que já foi dito para concubinas vitorianas, escrever as cartas que receberam as virgens prometidas das guerras napoleônicas. Pensar no que já foi pensado, dispensar os limites de nossa individualidade. Conhecer sobre o que cantam os passarinhos, respirar o que respiram os peixes no mar, refletir a paz dos destinos dos rios.
Merecemos a vida que está longe de nosso alcance, porém nos ancoramos para ver o único horizonte que nossos olhos enxergam. Sonhamos no que está além de nossa visão, sabendo que lá vivem todas nossas satisfeitas expectativas. Queremos ir além do horizonte, esse horizonte dinâmico que se adapta constantemente para nos fazer continuar desejando o que não temos. Estendemos a mão para alcançar aquilo que deixamos de ver quando piscamos. Seguimos nossos passos, dando voltas em torno de nossas humanas limitações. Sentimos nosso sangue se reciclar como nossas vidas. Sabemos que não existe o amor perfeito, porém nunca deixaremos de procura-lo, convencidos que ele poderá um dia passar por debaixo de nossos narizes. Saímos ao sol todos os dias, quem sabe é hoje que seremos iluminados por algo além dos raios solares. Encaramos as estrelas com expectativas que em uma delas a gente veja o reflexo de nosso destino. Sonhamos alto, pois é tudo que temos.
Rabisco versos em minha pele, forçando uma forma pessoal de stigmata. Buscando deus no sangue que escorre pelo braço, meu merecido conforto. Todos merecemos segredos. Conversamos com a angústia e combinamos futuros encontros. Olhamos no espelho para ver se dessa vez gostamos do que vemos. Rezamos para os deuses panteístas ao chorar mais uma lagrima de desilusão. Engasgando no concreto das intermináveis cidades. Os rios cochicham lindos versos que se elevam à luz divina, e quando eu canto, as montanhas também cantam. Vemos que os pesos que carregamos não precisam ser cicatrizes, são apenas meros arranhões insignificantes perante o que é real.
A vida em potencial não é o que sentimos. Não é o que vemos. A vida em potencial não é o que queremos que ela seja, ela é sempre o resto. É aquilo que poderíamos sentir, o que poderíamos ver, é aquilo que talvez gostaríamos que ela fosse. Lemos os livros de outras vidas, apreciamos as pinturas de outras percepções, cantamos os refrões de outros sofrimentos, tentando por apenas um minuto sentir o que poderíamos sentir. Estamos em uma busca eterna atrás daquilo que nunca iremos encontrar, sem nunca perder a esperança. Temos que encarar a vida de cara, sempre. Encarar a vida de cara para poder depois descarta-la. Aceitamos os minutos. Aceitamos os dias. Aceitamos a vida.
Nos limitamos ao falso conforto da vida completa, a romântica visão do "o que mais posso querer". Ignoramos o óbvio para andarmos em linhas retas. Queremos a vida em potencial, mas nossos limites não nos permitem. Nós somos a evolução da aceitação desse raciocínio. Não podemos viver a vida como ela pode ser, portanto criamos uma versão genérica da mesma. Uma vida que reflete nossos limites como seres humanos. A busca pela vida em potencial é um caminho a ser percorrido só, com estradas que só o indivíduo pode construir e percorrer, com hotéis de beira de estrada onde somos os recepcionistas e o hóspedes, gurus e aprendizes. A estrada do conhecimento só termina quando nos afastamos demais do rio e deixamos de ter acesso à água--o elixir da vida--nosso comforto realista. Seres mortais, aventureiros da subjetividade, se infiltrando sempre mais adentro da densa floresta de possibilidades. Fugindo do elixir da vida, morrendo a cada passo. Curiosos, olhos brilhando como os das crianças, nos aprofundando no infinito da percepção. Sacrificamos a vida em comforto para podermos aprender o que a vida é exatamente. Entramos na interminável floresta para nunca mais voltarmos e, se voltarmos, sabemos que tinha muito mais para ser visto. Com o rabo entre as pernas, voltamos à estabilidade, o refúgio para se esconder da vida como ela pode ser. Um suave suicídio espera quem tentar a compreender.

-Guilherme Rocha
A Moita Suspeita

domingo, 1 de abril de 2007

ALGUNS POEMAS EDSON FEUSER

ARAR

QUERO ARAR ESSA LÁGRIMA
E PLANTAR QUIMERAS
DE SER EU TÃO VIVO
DE SER EU TÃO LÍVIDO
DE SER


ALADOS

EU RABISCO!
E SINTO COMO QUE BELISCO
A PELE DA FOLHA
NÃO APERTO MUITO A CANETA
PARA NÃO SULCAR E USAR O OUTRO LADO
NÃO VEJO O OUTRO LADO
DESEJO QUE USEM O OUTRO LADO
OU QUE NÃO USEM MAS,
QUE ELE,
FIQUE LADO, ALI, PARADO
QUERO QUE PERDUREM OS LADOS
UNIDOS
ATADOS
LADADOS.
HÁ LADOS
ALADOS.

EU SOU

EU SOU UM AMERICANO LOUCO
DE CARTOLA OU CHAPÉU-CÔCO
DE GRAVATA E TERNO CARO
OU DE BATA E CHINELOS RAROS

EU SOU UM AMERICANO LOUCO
DE CHUTEIRAS OU BOLA NA CESTA
CARECA, CABELO LISO, RASTAFARI, CACHEADO
COM PIOLHOS OU TIARA DE BRILHANTES

EU SOU UM AMERICANO LOUCO
DO MEIO, DE CIMA OU DE BAIXO
EM ALGUMA ETNIA OU IDEOLOGIA
EU ME ENCAIXO

EU SOU UM AMERICANO LOUCO
DITADOR,LIBERTÁRIO
CONTRA OU REVOLUCIONÁRIO
REALISTA OU VISIONÁRIO

EU SOU UM AMERICANO LOUCO
COM A CABEÇA CHEIA DE RELIGIÕES
MISTURANDO TUDO OU ATEU
INTEGRADO SEM PERCEBER A VOLÚPIA CONTINENTAL.

sábado, 31 de março de 2007

O enterro do Andy

Você nasce, diz que ama, dói e morre. Há quem me diga pessimista, há quem brade ‘realista’!, Mas eu? Eu cansei de me dizer, eu me arrasto pela vida, sorvendo o tédio-de-cada-dia pelas plantas dos pés. Já me disseram que o maior minuto de sua vida é o que antecede a morte. É aquele retrospecto: infância feliz jogando bombinhas na casa de vizinhos, brincando de médico com a irmãzinha do amigo incestuoso, correndo com mais alguns menininhos atrás de uma bola suja. Aí vêm a adolescência, primeiras competições, rebeldias megalomaníacas como fumar às escondidas na escada de incêndio, shows de rock, e a paixãozinha boba. Espinhas na cara, punheta e revistas eróticas. Juventude madura, politização, passeatas, namoros sérios, orgias, bebedeiras, drogas, um pouco de trabalho, um tanto de faculdade, e pronto, vida adulta. Casa, carro, filhos, horários, happy-hour, amante, cachorro, viagens de férias, velhice, visita de filhos, morte.

Nesse grande e infinito bolo, a calda é despejada em generosas camadas gosmentas de uma moralidade guilhotinesca. Primeiro arrancam-lhe o pau, símbolo da corruptela de nosso monturo de carne de terceira pecadora, em seguida um manual de instrução, que, longe do calor de suas concepções inocentemente lidas, programa os seus bagos para arquear a sua alma em uma vozinha castrada. Nome disso? Humildade. A descrição do inferno é hedionda e enfadonha. Só não descrevem o homem. Se a empreitada fosse finalmente bem feita, ao receber os internos, as hóstias infernais sentiriam a ameaça de seres não filhos do pecado, filhos de andy warhol com veias heróicas pulsando em riste. Uma anarquia desconstrutivista dos parâmetros curriculares da instituição infernal dantesca. Mas dante pode estar errado, como sempre estamos.

Esse minuto funesto me persegue a cada segundo. A anormalidade de minha vida consistiu no meu incômodo cotidiano de experimentar o caminho natural das coisas. O exército ruma à Normandia, e você assiste de camarote. Não dá um tiro. Fica em sua poltrona comendo biscoitos de gordura hidrogenada e bebendo coca-cola. Mas o problema não é espectar, é saber que é expectador. É ver a teia a ser tecida pela aranha cabeluda e sorridente, que de quando em quando, libera um veneno de alívio, enquanto você abre mais uma latinha e rabisca um panfleto anarco-proletário-salvacionista.

A vida de um sujeito pode chegar a um tal ponto que a idéia de morte, longe de ser alívio, é tédio. Sua libido escorrega montanha abaixo, seu corpo mal pede comida, e quando se arrasta, é até as microondas da televisão de cozinha, onde os filmes hollywoodianos são mais baratos e comerciais, mais tragáveis. Seus telefones param de tocar, seu carro enferruja e seus pais vão à Europa e te mandam um postal de ano em ano com rabiscos ininteligíveis de quem mal escolheu a foto e pediu ao vendedor que riscasse quaisquer recomendações vazias.

Da janela penso que essa é a vanguarda da geração que bate à porta. Nem o prozac salva. Somos um câncer com um ego expandido, que a tudo avalia e encolhe, na incompatibilidade de te trazer algum prazer. A dor sempre esteve aí, mas nunca foi tão inteligente. Hoje ela conta com bilhões de neurônios que mal são apagados com álcool, sexo ou drogas. É uma parte da fisiologia, um novo apêndice que cresce metros e metros por entre a massa cinzenta, até absorver todo organismo. Olá, seja bem vindo, essa é a minha gang, meus comparsas, meus filhinhos do caos, meus pós-apocalípticos. O novo mundo já foi descoberto, o estado já é laico, a Alemanha já foi vencida e a guerra fria acabou. O que sobrou pra nós? A Paris Hilton.

- soldado John, como foi libertar um país das mãos de um ditador sanguinário?
- sei lá, me deu vontade de dar uns tiros e vim pra cá me divertir. Foi bem legal, consegui até por dois desses cara-queimadas para se comerem aos berros de alaaaaaaaaaaaaaaah!

Na penumbra de letrinhas pretas, borro a paisagem de uma geração que nem se reconhece. Geração? Eu sou um. Você é outro. Os universos entre nós nunca estiveram tão distantes. A cova nunca foi tão profunda, e o caixão já apodreceu. Todos de olhos vidrados e esbugalhados na tela brilhante! Avante! Ainda temos que descobrir o mistério que levou a Britney Spears a se separar do Justin! Como viveremos sem isso?

Uma carreira, duas carreiras e um vislumbre de lucidez, uma vontade de me juntar aos vietnamitas e enfiar balas em cabeções americanos com cara de budweiser. Vontade de uma causa, de um livro vermelho, de uma cartilha de guerrilha, de um movimento pacifista neo-hippie, vontades voláteis. Mais uma carreira. Shhhhhhhhhhhh. Vontades voltam e somem com as trilhas mágicas do pó da cinderela. O golden gate se abre e se fecha em intervalos suficientes para que você chegue a alguns milímetros de atravessá-lo, mas nunca consegue, nunca. A luz só impressiona. É intangível em sua imundície.

Meus olhos já secaram e andam rijos. Não existe motivo de choro. Não existe a dor melancólica dos poetas, o coração partido e a paixão idealizada... Existe apenas essa dor seca que contorce os seus intestinos e revira seus bagos, e só. Ela é seca, ela não chora. Ela pede leite condensado e um pouco mais de musicas do último segundo e de imagens re-imagens pré-imagens. Nada se inventa. Nem se cria. Transforma-se? Mentira. “Acredite se quiser”.

A mudança é um sonho sórdido, pois se ampara na idéia de que alguma coisa melhora. Impossível. Se uma coisa melhora, ela passa ontologicamente a adquirir o status de pior. E você quer mais e mais. E mais de nada. Porque nada vai saciar a sede. Inconformado, rio do pote seco. Uma risada maligna e dolorosa, de quem não aceitou a vida, mas não quer mais lutar por ela – e nem quer o trabalho de desistir. Só o vazio, um pianinho ao fundo e um copo de rum, já que o whisky anda caro demais.

Aos beliscões tentam me reanimar ‘vamos lá, vai ser bom’. Bom? Nunca é bom. É ruim porque é vazio, maquiado, e acaba. E o sabor do batom se desfaz à primeira olhada no espelho. Não sei se preciso disso. Não sei se não preciso. É um momento vivo onde existe a constatação de que estamos completamente mortos e ressequidos, trocando farpas humildes em mesas de bares mexicanos.

Vamos falar de amor. Pernas abertas em luxúria, cacetes armados, sussuros indecentes e gozos. E ai? O que existe depois disso? Passagem pra eternidade? Não. Pro inferno. O apêndice te cutuca pra lembrar que acabou e esvaziou-se. Secou, morreu. Até a próxima. Ereção. Ejaculação. E a próxima e a próxima. Um dia seu pau não sobe. Tome remédios e continue assim, vamos longe!

A fé é uma experiência fantástica. Ela irrompe das dialéticas de beneces e perdão e fulmina o peito com a paz. A paz de ver o tumor e sorrir. Já vi um velho pastor à beira da cama sorrindo ‘vou encontrar meu criador’. Mesmo que ele não o tenha encontrado, ele viveu. Alienação? Não. Vida. Não vida é respirar o ar tuberculoso da cidade que te entope as entranhas de um lodo preto que não se lava.

No turbilhão de blábláblás que já fui obrigado em fusões com grandes carteiras de cedro e ouvidos encerados com cotonetes johnsons a tolerar, pequenas estrelas ainda me intrigam. Primeiramente vistas em idade infantil, donde muitas cintilam até hoje. Ainda as conto nos dedos, mas seus brilhos poderiam preencher a eternidade do espaço. Eles encontraram, eu não. Não consigo compreender o brilho pela lógica, mas é precisamente a compreensão lógica que me cega da fulminação mística. Mas como conseguir uma fulminação mística? Estar aberto. Como estar aberto? Foda-se. Sou lógico. Morrerei como um Dedalus em súplicas no leito de sua cama fria ainda adolescente espreitado por demônios rabudos e dançantes em rodas pagãs por entre os meus miolos enervados.

Deus salve a Latrina das américas.
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Mateus Souza (revisado)

sexta-feira, 30 de março de 2007

Fases

Descobri, aprendi

Descobri que sou uma ponte com caminhos próprios
Aprendi que posso escolher ser feliz ou não
Descobri que certas dores são inevitáveis,
Aprendi que chorar alivia, mas não muda a situação
Descobri que meus maiores bens são os sentimentos que as pessoas tem por mim
Aprendi a cativar e que ser rica ou pobre não é questão de grana
Descobri que a timidez me afasta das pessoas
Aprendi que o sorriso é a melhor forma de estar perto delas
Descobri que perder pode não ser ruim
Aprendi que mesmo que eu não entenda na hora o melhor ainda está por vir
Descobri que deus está sempre comigo
Aprendi que ele tem vários nomes, um deles é a voz da consciência
Descobri que é preciso também dizer não
Aprendi que tenho que me salvar de mim mesma
Descobri que certas lembranças são tão vazias quanto um tecido morto em pele saudável
Aprendi a cortar o mal do passado seguindo em frente
Descobri que posso não estar feliz o dia todo
Aprendi que posso ser feliz antes que o dia termine
Descobri que me anular é trair a mim mesma
Aprendi a ser autentica e leal a isso
Descobri que a mentia e a omissão são armas que ferem com a mesma intensidade
Aprendi que não devo usa-las
Descobri que não devo dormir com vontade de fazer as pazes
Aprendi a não guardar mágoa
Descobri que estar perdida não é estar sozinha
Aprendi que tenho amigos para pegar na minha mão quando eu sentir medo


Descobri que tenho muito a aprender e que isso é um ciclo sem fim

Anna Paula Oliveira

quinta-feira, 29 de março de 2007

Fome /sede

Dias perdidos, onde eu não estava.
Escondida e contida no silencio violento de quem me comprimia
Um retrato sem cores na parede.
Minha casa
Um convite
Mesa posta
Comida esfriando sobre a mesa
Esperando por alguém que não tinha fome
Autofagia, não!
Eu tenho fome, mas também posso nutrir.
Famintos de mim


Anna Paula Oliveira

quarta-feira, 28 de março de 2007

CARTA DO ÚLTIMO ATO

Sabe aquela paz? Aquela, que você só encontra quando pega seu carro, toma a BR-101 até o município de Casemiro de Abreu, dobra à esquerda no trevo da rodoviária, depois à direita, à esquerda novamente, sacolejando 30 km por estreita estrada de terra até chegar ao último distrito de Macaé? Sabe? Se não sabe, experimente um dia. E melhor: faça como eu fiz, que descendo no arraial, tomei a pé o rumo das primeiras cachoeiras, subindo por quatro horas até o cume de 1400 metros, onde existe aquela pedra grande, com uma outra menor, incrivelmente equilibrada em cima da maior.

Seria meu último ato estar naquele lugar onde o litoral pode ser visto, e onde me vi cercado pelo Rio Macaé ao sul, pelo município de Macaé ao norte, por Casemiro de Abreu a leste, e por Trajano de Moraes e Nova Friburgo a oeste, esperando — talvez — um milagre que me impedisse de fazer o que lá fui fazer. A vida não mais valia a pena, ela se fora, perdi qualquer propósito, qualquer esperança e vocês sabem, sem esperança não dá.

Não, eu não estava sofrendo por amor não. Até estava, mas o fato é que ela não me deixou para ficar com outro ou porque se cansou de mim, mas porque lhe aconteceu o que ocorre com todas as pessoas boas que "caem" neste mundo: "a vida continua", "bola pra frente", "ela se foi, mas você está vivo”. Esse último argumento era o mais duro de ouvir!

Enfim, tentei levar a vida, depois de quase morrer de inanição, retomando o trabalho, os antigos projetos que esboçamos juntos, mas não deu: não tinha como continuar vivendo!

Seis meses se passaram, um ano, mais seis meses e nada: Nada da antiga alegria, do entusiasmo pela vida, da serenidade aprendida e praticada. Nada dessas coisas que amenizam a carga de ser homem. Então lembrei daquele lugar, onde fôramos juntos pela primeira vez e onde retornamos muitas vezes, com nossas mochilas, nossas lanternas, nossa barraca. Bom, se era para acabar com minha vida, extenuando a dor, tinha de ser lá. Eu sempre tive dessas coisas, tomar a decisão certa de forma inconsciente, mas olhem, daquela vez o destino jogou duro comigo. Foi assim, de repente:

— E aí, camarada? Tem um cigarrinho careta?

Quase vomitei pelo susto. Foi uma questão de instantes. Estava sozinho naquela imensidão dourada e eis que surge aquele cara, saído não se sabe de onde, sentado ao meu lado, pedindo cigarro.

— Tenho sim. — respondi, controlando o pânico, e estendi lentamente o maço inteiro para ele.

— Pra falar a verdade, não quero seu cigarro não. — disse rindo. - É que você não deve subir aqui sem guia. Sabe "qualé": é perigoso...

— Não ligo. — respondi expelindo o máximo de ranço que pude reunir. Afinal, aquele projeto de hippie, tatuado, com um cabelo comprido-imundo, calça rasgada e mais suja do que um pano de chão, estava obstando o meu grande plano de morrer em paz.

— Pois devia ligar, cara. Devia ligar. — seu sorriso era quase sarcástico.

— E posso saber por quê? — perguntei colérico.

— Ué!? Simples pô! — ele passou a mão pelo cabelo e colocou um tufo de fios encaracolados por trás da orelha direita:

— Porque a vida é beeeeeela... — e se deixou cair para trás, braços abertos, com uma cara de idiota, realçada por um sorriso ridículo. Desconfiei de que aquele sujeito tivesse "fumado" o Pico do Peito do Pombo inteiro.

— Sabe de uma coisa, "bicho”? — disse-lhe, procurando imitar o seu modo de falar. — Vou indo! "Inté" para você. Vou procurar paz em outra freguesia...

Levantei e comecei a catar minhas coisas, guardando cuidadosamente a seringa. Ele continuou deitado, apontando para algumas nuvens, com aquela mesma cara de imbecil. Por fim disse:

— Tu já vais? É cedo! Toma mais um copo! — ergueu-se pelos cotovelos, deu de ombros e amealhou: — Mas se já vais, desculpe qualquer coisa.

— Tudo bem, a culpa não é sua. Aliás, não é de ninguém...

— Vê se desce com calminha, camarada. Sem pressa, valeu?

— Tá bom. — minha raiva havia milagrosamente passado e eu já estava quase gostando dele — E vê se não demora pra descer, você também. Daqui a seis horas vai começar a escurecer. — recomendei-lhe.

Ele nada respondeu. Apenas se colocou de pé, caminhou para uma pedra arredondada, subiu-a, e ficou com as mãos para trás, olhando o horizonte. Parecia estar falando alguma coisa, mas não se podia ouvir o que era.

Peguei minha mochila, localizei a trilha por onde vim e dei exatamente 15 passos naquela direção, quando ele gritou:

— Augusto!

Virei a cabeça totalmente aturdido pelo hippie ter dito meu nome. Senti uma pontada de mau-jeito no pescoço.

— Deus te ama!

Fiquei tão confuso, que só consegui exprimir meio sorriso, numa concordância polida: "Deus te ama".

Dei-lhe as costas pela última vez e desci a elevação a passos rápidos, com o coração disparado e um arrepio gelado ao longo da espinha.

Vitor Souza

(Texto publicado no livro "Rio de Janeiro, uma crônica a cada dia", editora Litteris - RJ, 2003)